Relatos de Quem Cuida

“É preciso acreditar no trabalho de equipe, nas mães guerreiras e nos bebês heróis”

Sou neonatologista há mais de 20 anos da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC/UFC/Ebserh), onde coordeno a Unidade de Cuidados Intermediários Canguru (UCINCa) há 6 anos. Me sinto privilegiada em estar nesse lugar que é um encontro das mães com seus bebês, nesse momento específico da quase alta em que as várias histórias de muita ansiedade, insegurança e medo vão progressivamente se transformando em esperança, alegria e superação.

Ao serem admitidos na Unidade, há uma mobilização da equipe no sentido de fortalecimento dos vínculos afetivos, autonomia das mães nos cuidados diários e   estímulo ao aleitamento materno. Esses são pilares do cuidado humanizado ao recém-nascido, conhecido como Método Canguru, e bem incorporado pelos profissionais na nossa prática diária.

Recentemente, uma mãe jovem, de 20 anos, primeiro filho, há mais de um mês internado na Unidade de Cuidados Intensivos, nos surpreendeu. O bebê nasceu de 32 semanas e estava com 37 semanas quando foi admitido na Unidade. Apresentava um quadro de desconforto respiratório, sonolência e disfunção oral importantes. A dieta era mista com estímulo ao seio e complemento na mamadeira de fórmula devido à baixa produção materna.

A mãe, apesar de cuidadosa, comunicava-se pouco, tanto com olhar, como com conversas, e tinha dificuldade de colocá-lo na postura canguru.  A equipe, multidisciplinar, realizou várias intervenções de estímulo neste sentido. Foi um processo muito difícil. Já havia entre nós um sentimento de derrota, por parecer não ser possível o resgate completo da amamentação. Mas seguimos firmes na conduta do método.

Foi quando o bebê começou a reagir, com melhora importante do desconforto respiratório, permanecendo mais tempo em estado de alerta, solicitando mais o olhar e a fala da mãe. Como resultado positivo dessa interação e confiança materna, a produção do leite aumentou rapidamente. Ele pôde, então, ser liberado em amamentação exclusiva ao seio e com mãe muito segura, confiante e agradecida.

Apesar das experiências diárias com as dificuldades dos bebês e suas mães egressos das unidades neonatais, esse caso nos permitiu mais uma vez refletir que é preciso sempre acreditar no nosso trabalho de equipe e, sobretudo, nessas mães guerreiras e nesses bebês heróis de suas próprias histórias. O tempo de cada um é só dele, a paciência é nossa. A confiança é das mães na equipe.

O meu tempo de “cuidar” é passageiro, mas espero deixar sempre um pedacinho do meu lado bom em cada, pois vou carregar um pouquinho de todos para sempre.

Rosalina Ramos – Meac-UFC

Sobre a Rede Ebserh

Desde novembro de 2013, a Meac-UFC faz parte da Rede Ebserh. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) foi criada em 2011 e, atualmente, administra 40 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência.

Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e, principalmente, apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas.

Devido a essa natureza educacional, a os hospitais universitários são campos de formação de profissionais de saúde. Com isso, a Rede de Hospitais Universitários Federais atua de forma complementar ao SUS, não sendo responsável pela totalidade dos atendimentos de saúde do país.

MEAC - UFC