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HUSM utilizou técnica inédita para moldar implante ósseo e reconstituir crânio de paciente

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HUSM utilizou técnica inédita para moldar implante ósseo e reconstituir crânio de paciente

 

 

 28 de março – Um homem de 40 anos dá entrada no Pronto-Socorro do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), vítima de acidente de moto e com traumatismo craniano. Devido à gravidade do caso, a avaliação do paciente – que normalmente acontece na sala de emergência – ocorreu dentro do bloco cirúrgico. O neurocirurgião que estava de plantão naquela noite era o dr. Diogo Trevisan.

- O chamado time cirúrgico, realizar a cirurgia logo na chegada do paciente, foi fundamental para salvá-lo. Ele chegou, e foi encaminhado para o bloco. Essa decisão foi fundamental. Caso contrário, nós não o teríamos hoje – revelou o médico.

Para salvar o paciente, uma vez que o impacto na cabeça fez o cérebro inchar, foi preciso remover parte da calota craniana.

- A pressão cerebral estava muito alta. Retiramos a lateral óssea durante a cirurgia de craniotomia descompressiva – explicou o médico.

Essa técnica – já conhecida dos neurocirurgiões – previa a retirada do osso e seu implante no abdome do paciente, para depois reaproveita-lo. O que não foi possível nesse caso, pois seria necessário duas intervenções cirúrgicas simultâneas: uma para retirada de parte da calota craniana e outra para o implante no abdome.

- Como era uma cirurgia de extrema urgência e o paciente estava em condição crítica, não valeria a pena. O quadro era muito grave – disse Trevisan.

A recuperação do paciente, após a cirurgia, surpreendeu o médico. Porém, ainda era preciso projetar a reconstrução do crânio com a fixação de um implante (Cranioplastia). O planejamento iniciou na semana seguinte a primeira cirurgia. Mas o sucesso dessa segunda etapa só foi possível graças a assistência multiprofissional das equipes do E-Saúde, do Projeto CA+SA, do Serviço Bucomaxilofacial e da Unidade de Diagnóstico por Imagem do HUSM.

Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o método mais usado para reconstrução é o implante feito com cimento ósseo. Porém, a área removida era muito extensa – representava mais de um terço da calota craniana. Além disso, o cimento ósseo exige agilidade no manuseio porque ele seca rápido, em torno de 10 ou 15 minutos.

- É um trabalho artesanal. Funciona como uma massinha de modelar, que em alguns minutos vai endurecer e a gente não consegue dar o contorno. Quando a falha óssea é pequena, utilizamos sem problema. Mas nesse caso, a falha óssea era muito grande e não conseguiríamos reproduzir de maneira confiável o contorno do osso do paciente.

Trevisan já conhecia o trabalho feito pelo grupo de Gustavo Dotto – a impressão de biomodelos em impressoras 3D para planejamento cirúrgico – e não teve dúvida, foi procura-lo.

Dotto, que é professor da UFSM e chefe da Unidade E-Saúde, teve então a ideia de usar as impressoras para dar forma a uma peça que pudesse servir de molde para o implante de cimento ósseo (biocompatível).

- Como havia uma grande área fraturada, não era possível moldar o implante diretamente no paciente. Então, usamos as imagens da tomografia dele, antes e depois da primeira cirurgia, para fazer o molde na impressora, e o cimento foi colocado diretamente nesse molde. O implante já chegou pronto no bloco cirúrgico – contou Dotto.

A peça foi feita antes da cirurgia para reconstrução do crânio, o que reduziu o tempo do procedimento e o tempo anestésico do paciente, diminuindo também o risco de infecção pois reduziu a exposição dele.

- Para o implante, primeiro manipulamos o cimento, fizemos a inserção no molde e, em torno de 15 minutos, ele tomou presa e a peça ficou pronta. O implante foi customizado para o paciente, ou seja, confeccionado com as suas medidas exatas. Esse processo durou cerca de 1h – explicou a Cirurgiã e Traumatologista Bucomaxilofacial, Wâneza Dias Borges Hirsch, que coordenou o preparo executado pelo Cirurgião-Dentista Marcelo Smialowski Fontana - integrante do Projeto Vivências para Profissionais na Área de Bucomaxilofacial do HUSM, já que a Dra. Wâneza está gestante e não poderia manipular o material.

Após o implante ficar pronto, um novo desafio: era preciso esterilizá-lo e ter certeza de que a sua estrutura não seria afetada nesse processo.

- Fizemos o implante e mandamos esterilizar na V-pro (máquina que usa água oxigenada em forma de gás para esterilizar em baixa temperatura, para não agredir o cimento). Tínhamos dúvida de como o cimento iria se comportar depois do processo de esterilização. Fizemos uma parceria com o laboratório do Curso de Química da UFSM. As análises e testes do material foram executadas pelo Professor Bob Burrow. A peça foi para o microscópio e observou-se que não tinha sofrido alterações – contou Wâneza.

A cirurgia para o implante no paciente foi então marcada para o dia 23 de abril.

- Na Cirurgia para Cranioplastia, entramos juntos no bloco cirúrgico, e enquanto o Dr. Diogo preparava o leito cirúrgico receptor para o implante, deixamos as placas e parafusos na espera para a fixação no crânio. Quando ele colocou a peça de cimento ósseo no paciente, encaixou muito bem. Fixamos com placas e parafusos para a estabilidade do implante – recorda Waneza.

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