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Serviço de Referência para Atendimento de Vítimas de Violência sexual do HUSM atendeu 71 casos em 2017

DENUNCIE

Serviço de Referência para Atendimento de Vítimas de Violência sexual do HUSM atendeu 71 casos em 2017

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), toda criança tem direito à saúde e à vida longe da violência. Mas, na prática, esse direito não é garantido nem para as crianças e adolescentes nem para adultos. A maioria das vítimas de violência sexual são menores de 18 anos. A cada hora, três crianças sofrem abuso no país.

Desde dezembro de 2015, o Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) é um Serviço de Referência para o acolhimento de pessoas em situação de violência sexual. O atendimento porta-aberta acontece 24h e conta com uma equipe multiprofissional (médico infectologista, ginecologista, enfermeira, psicóloga e assistente social). Isso significa que o paciente pode procurar o Pronto-Socorro infantil, o adulto ou o Centro Obstétrico do HUSM antes mesmo de registar Boletim de Ocorrência.

- Nosso objetivo nas portas abertas é o atendimento de casos agudos. Realizamos a profilaxia das doenças sexualmente transmissíveis e a prevenção da gravidez indesejada. Geralmente, atende o médico e a enfermeira juntos. Além disso, se tiver necessidade de encaminhamento, nós contamos com a médica infectologista, psicóloga e assistente social, para o acompanhamento de 0 a 18 anos, nos casos crônicos, cujo abuso aconteceu há mais de 72h – explica Clarice Mottecy, médica ginecologista, responsável pelo ambulatório dos adultos.

- A gente faz capacitação da equipe, que atende nas portas de entrada, todos os anos, para explicar que o hospital é referência, que não pode mandar o paciente embora, que não pode ficar questionando o paciente, que o atendimento não pode ser realizado na presença de acadêmicos. Tem todo um passo a passo a ser seguida – afirma a Enfermeira Vergínia Rossato.

- Todos nós temos obrigação de guardar sigilo. Quem atende as pessoas em situação de violência não pode nem sair falando do caso – reforça a médica ginecologista.

Em 2017, o hospital universitário atendeu 71 casos de violência sexual (20 adulto e 51 infantojuvenis), com maior recorrência de abusadores do sexo masculino, cujos crimes aconteceram dentro da casa da pessoa. Os casos também mostraram que a violência sexual é mais frequente no sexo feminino (96% dos casos) e, outro dado alarmante:  o autor é conhecido da vítima, o que impacta sobremaneira na saúde psicológica das pessoas.

- A grande maioria são menores de 11 anos e, em 70% dos casos, a violência é cometida por pessoas próximas a ela, como pai, padrasto, tio, vizinho. – afirma a pediatra Marceli Bertoncello, médica do ambulatório criado para atender crianças e adolescentes, que funciona nas quintas-feiras à tarde.

Nos casos agudos, além da profilaxia,  há coleta de material junto ao Departamento Médico Legal (DML). Pode acontecer de ter presença de esperma, que é o material biológico do abuso. Nós atendemos uma criança que era abusada pelo tio e a mãe desconfiou. Tinha ocorrido no mesmo dia, ela trouxe aqui, foi coletado material  DML e provado o abuso. O tio foi preso e está cumprindo pena. Tivemos também um pai que abusava das duas filhas e foi preso também – conta a pediatra.

Após o atendimento ambulatorial, quando a criança ou adolescente receber a alta, a Secretaria Municipal de Assistência Social e Conselho Tutelar serão notificados para que possam continuar acompanhando o caso.

- Nós, como profissionais, temos obrigação de comunicar o Conselho Tutelar, quando nos depararmos com caso de abuso de menores de idade e orientar os pais a fazer o Boletim de Ocorrência. Em muitos casos, o Conselho Tutelar acaba retirando essa criança de casa, do convívio com o agressor, ou quando é caso de agressão de toda família, se retira toda família da casa – esclarece Marceli.

No abuso sexual em maiores de 18 anos, os indicadores se repetem: a maioria das vítimas também é mulher e em alguns casos o abusador é o próprio companheiro.

- As pessoas acham que violência sexual é praticada só por desconhecido. Mas uma mulher, mesmo casada, que for forçada a manter relação sexual com o marido, está sofrendo violência – diz a médica Clarice Mottecy.

Quando o abuso resulta em gravidez, a interrupção legal pode ser realizada.

- A interrupção só é permitida por lei até a 20ª semana de gestação e em casos de violência sexual, anencefalia (ausência de encéfalo) e quando a mãe corre risco de vida – explica a enfermeira Berenice Rodrigues.

Entretanto, os casos de interrupção legal só podem ser realizados em Centros de Referência e não em Serviços de Referência, como é o caso do HUSM. No Rio Grande do Sul o Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, em Porto Alegre, é um dos locais para onde o HUSM encaminha as mulheres que necessitam fazer a interrupção.

Apesar do número de casos ser revoltante, os especialistas acreditam que eles estão subestimados. A realidade é muito maior, pois 90% dos casos não são registrados e não fazem parte dessas estatísticas. Um obstáculo para denúncia é a dependência financeira das vítimas maiores de 18 anos e a dependência psico-afetiva das vítimas menores.

Para tentar mudar essa realidade, o HUSM conta com um projeto de Extensão chamado “Violência Sexual, vamos falar sobre isso”. O grupo realiza rodas de conversa dentro e fora da UFSM e em Municípios da Região para falar sobre o empoderamento da mulher, sobre o trabalho da Equipe de Matriciamento de Violência e como e onde as pessoas devem buscar ajuda.

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Fique atento as sinais dos pequenos!

Uma criança ou adolescente, que estiver sendo vítima de abuso, muda completamente seu comportamento. Por isso, é importante os familiares e professores ficarem atentos aos sinais que essa criança irá apresentar. Baixo rendimento escolar – de forma súbita - , agressividade, distúrbios de sono – criança que não quer mais dormir sozinha - , perda de esfíncter – não usava mais fralda e voltou a urinar na cama -, distúrbios alimentares – ou não come nada ou come demais- , são indicativos de que a criança pode estar sofrendo abuso. 

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O que é Violência Sexual

“É qualquer ação na qual uma pessoa, valendo-se de sua posição de poder e fazendo uso de força física, coerção, intimidação ou influência, psicológica, com uso ou não de armas ou drogas, obriga outra pessoa, de qualquer sexo, a ter, presenciar, ou participar, de alguma maneira, de interações sexuais ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, com fins de lucro, vingança ou outra intenção. ”

Fonte: Ministério da Saúde

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Linha do tempo

A origem do nosso serviço

2010

Logo após a introdução da notificação compulsória das violências sexuais no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), a discussão da temática foi intensificada no HUSM, com o objetivo de qualificar o atendimento que já vinha ocorrendo desde 2005 no hospital;

 

2014
Foi criado o Grupo de Trabalho Integrado de Enfrentamento de Violências (GTIEV), com participação do HUSM, Município e 4ª Coordenadoria Regional de Saúde;

 

2015
Desde maio, com apoio da Promotoria Estadual da Infância e da Juventude, o Hospital Universitário de Santa Maria é o Hospital de Referência na Região, que atende pessoas em situação de Violência Sexual;

Em dezembro, foi nomeada a Equipe de Matriciamento e o Hospital passou a ser, oficialmente, um Serviço de Referência para o atendimento as pessoas em situação de Violência Sexual na Região;

 

2016

Em março, foi criado o ambulatório especializado para atendimento de criança e adolescente em situação de Violência Sexual. Em maio, foi inaugurada Sala de Matriciamento no HUSM. Em junho, a Equipe participou da Capacitação dos Serviços de Violência Sexual e Interrupção da Gestação nos casos Previstos em Lei, em Brasília, promovida pelo Ministério da Saúde. Em novembro, foi estabelecido fluxo para atendimento ambulatorial, de Zero a 18 anos nos casos de abuso crônico.

 

2017

A Equipe promoveu evento em Santa Maria, para discussão da Interrupção da Gestação nos casos previstos em Lei. Participaram 158 pessoas. A capacitação contou com integrantes da Equipe do Hospital Presidente Vargas;

 

2018

 Em março, representantes da Equipe de Matriciamento do HUSM participaram, em Porto Alegre, do Seminário Estadual “Construindo Redes de Atenção à Saúde das Pessoas em Situação de Violência Sexual”. Na ocasião, o grupo recebeu o certificado de mérito concedido pela Secretaria Estadual de Saúde ao HUSM, por ter o Serviço de Referência na Atenção Integral às Pessoas em Situação de Violência Sexual no Rio Grande do Sul.